Aquela fresta, aquele ângulo.

Aquele enquadramento.

Enquadra.

 

Tijolo, bloco, concreto.

Construção. Demolição.

 

Na contramão. No farol.

Atrapalhando o trânsito.

Atrapalhando o tráfego.

 

As torres. Nos olham da cidade toda.

De qualquer lugar, ela está lá. É só olhar.

 

Rosário. Dos homens pretos.

E das mulheres pretas.

 

Na praça não pode. Não é pra você.

Tá fazendo o que aqui? Enquadra.

 

Da igreja, só o nome.

Ou nem isso. Ninguém lembra.

 

Pra que falar disso? 

Isso não existe, todo mundo é igual. 

É coisa da sua cabeça. 

Corta o cabelo.

 

Praça com o nome do poeta.

Negro. Retinto.

Tinha que ter uma estátua.

Pra todo mundo saber que é preto.

O poeta. Os versos. 

O pai, a mãe, o filho. Tudo preto.

 

A praça tem nome de princesa.

O rosário é dos pretos. Homens.

Das pretas. Mulheres.

Não a praça.

 

No dia 20 pode.

Maracatu. Cortejo.

Matadouro.

Não pode. Enquadra.

 

Essas músicas não. 

Não aqui.

Na praça não.

Quem é essa gente?

A gente não é assim.

 

As torres.

Olham pra gente.

Na praça.

O tempo todo.

Não pode.

Pretos. Os homens.

Enquadra.

 

A cidade é de quem?

- Shel Almeida 

 

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